Eis que o querido e perturbado(r) Felife vem com mais uma das suas no grupo de WhatsApp que reúne os amigos mais próximos dos tempos de faculdade de Jornalismo na UFPB. Dessa vez a mais importante tese irrelevante do dia é sobre os bairros de João Pessoa. “Lugares para mim que não existem: Cristo é Rangel, Jardim São Paulo é Bancários, Jardim Oceania é Bessa, Jardim Cidade Universitária também é Bancários. Cuiá para mim não é bairro. É um rio. Cidade Verde é Mangabeira. E é isso! Mudem a minha opinião”, disse o postulante a geógrafo tabajara, brincando. Porém, sério, que eu conheço a peça.
Meu amigo Felife parece mesmo que não tem o que fazer. E ainda chama os outros para que o convençam que ele está errado. Como se o restante dos integrantes do grupo “uatsapístico” não tivessem diversos afazeres mais importantes do que refutá-lo. Edgley, Coca e Iago, pais de família que são, nem responderam. Quem vai dar ouvidos a Felife e suas peripécias opinativas? Não indico!
Eu também tenho muito o que fazer, então jamais demandaria tempo para mudar a opinião do amigo Felife. Talvez, se eu tivesse uma coluna em um jornal, aproveitasse o espaço para contra-argumentar o amigo. Eu diria tanta coisa. Não para convencer alguém de coisa alguma. Só para discordar de Felife mesmo. Eu adoro discordar dele. Ainda que ele adora muito mais não concordar comigo. Mas eu não tenho tempo para isso não.
Se eu tivesse eu diria para Felife que alguns dos casos que ele enumerou poderiam até fazer sentido. Mas ele, como Valentinense, e eu, como nômade pessoense, não conseguimos ter a dimensão exata de poder compreender a existência ou não de possíveis identidades “bairristas” sem vivê-las. Imagina dizer que quem é de Tambauzinho é do Miramar. Ou do Expedicionários. Edgley logo pontuou, com sua calma tibetana e resposta daqui de nós, num raro tempo que teve: “Fala isso lá, e os parceiros de Tambauzinho te quebram na porrada”.
Cristo ser Rangel eu nem sei se faz sentido. Mas eu achei um sacrilégio. Agora Jardim São Paulo ser Bancários é demais. Toca o real sagrado para mim. Jardim São Paulo é um bairro sim. Tem a sua identidade. Totalmente separada dos Bancários. No início deste século, o Jardim São Paulo era uma imensidão. Um mundo eterno a ser desbravado no auge dos meus nove anos. Eram quatro ruas eternas. Um lugar tão grande que tinha dois times. Duas subidentidades fortes. Uma rivalidade antológica, daquelas que quem era do time da rua de cá não se misturava com quem era do time da rua de lá. As crianças de lá eram de lá. As de cá eram de cá. Nem mesmo num mundo com os diversos botões de trocas de realidades que só existem no controle remoto da infância a turma se misturava.
Em campo, o duelo acontecia umas quatro vezes por ano: Rua de Lá x Rua de Cá. A essa altura o leitor já deve imaginar que eu era jogador do Rua de Cá. Afinal, naturalmente, eu jamais seria do time da Rua de Lá, com aqueles meninos enjoados. Rua de Cá até morrer! Eu era o mais novo do quadro titular do time, escalado ainda com Ramon, Eric, Alyson e Rusiel. Eric era meu ídolo. Em tudo. Botei até um brinco com nove anos de idade para ser parecido com ele. Também achava lindo ele jogar. O craque do time era Rusiel. O mais velho. Era um ídolo para mim porque com a moral que tinha, imposta pela bola que jogava e pela idade, permitia eu ser do time principal mesmo sendo uns seis anos mais novo.
Mas lembro que ele tocava pouco a bola. E que isso me incomodava. Mesmo em um tempo que eu nem tinha opinião. Ou se tinha, para o mundo eu não tinha. Com nove anos se existia opinião em mim, provavelmente ela era errada para os mais velhos. De modo que nem falava o que sentia. Só jogava. No entanto cresci. E continuo tendo um tanto de desespero com quem não toca.
Não sei a razão de todos os jogos terem sido na nossa casa. No nosso campinho que tinha um nome que eu achava magnífico: Campinho. Eles até tinham casa na rua de lá, mas os jogos eram sempre na nossa. Sou bom de memória. E nela consta que ganhamos todos os mais de 10 clássico que aconteceram no início dos anos 2000 no campinho da Rua Lindolfo G. Chaves, entre Rua de Lá e Rua de Cá. O time deles era até arrumado. Mas nosso quadro era mesmo melhor. Sempre! O Rua de Cá do Jardim São Paulo era a minha maior identidade, meu povo, meus amigos e meus ídolos. Minha maior vontade de acordar. Era eu. Ainda sou eu. Nesse tempo eu tinha muito tempo e não sabia nem o que era Bancários. Talvez nesse tempo eu conseguisse responder Felife e mudar a sua opinião.
Coluna publicada originalmente na edição de 19 de abril de 2026 do Jornal A União