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PÉSSIMO AMBIENTE

Coluna Jornal A União — A Copa da vergonha

Coluna publicada originalmente na edição de 14 de junho de 2026 do Jornal A União
Foto: Reuters
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O leitor ou a leitora mais avisado ou avisada, que acompanha de mais perto o Jornal A União, em especial essa tira do caderno de Esportes, pode se espantar. Isso porque no último domingo a coluna deste escriba, intitulada “Envolvimento diferente” descrevia minha empolgação com a Copa do Mundo que ali se avizinhava e que, a essa altura de domingo, já começou, e até jogo da nossa Seleção Brasileira teve.

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Talvez pareça, portanto, uma contradição de títulos e teores em tão pouco tempo. Mas não é o caso. A empolgação e vontade de tudo viver, de daqui de longe respirar os jogos de perto e de aproveitar o que o mundo da Copa tem a oferecer, segue intacta. Permanece forte, ansiosa, agoniada, atenta. Como jornalista e ainda mais como torcedor. Mas hoje é mais dia do jornalista — ou do cidadão do mundo — do que do torcedor. E a verdade é que a Copa de 2026, que vai me dar coisas lindas, imagino, é também uma grande vergonha.

Era difícil imaginar que fosse diferente. Esse conceito, aliás, que vale para mim, deveria ter valido mais para a Fifa. Que no fim das contas é grande parte dessa Copa. E dessa vergonha. Em que se pese que México e Canadá, na maior medida, não mereçam receber por tabela o carimbo da vergonha, a Copa do Mundo deste ano, pela primeira vez com três sedes, tem grande vida — e morte, Severina — nos Estados Unidos. E nos Estados Unidos de Trump.

Então estamos falando de um tratamento por parte da nação historicamente bélica do Norte dos mais absurdos, desrespeitosos e deprimentes da história do esporte e do evento mais importante da modalidade mais popular do planeta. Já vimos todo pacote Trump em matéria de mundo na Copa. A parte americana do torneio tem sido marcada por entregar grandes restrições contra delegações, revistas humilhantes a jogadores, funcionários, comissões técnicas e jornalistas, trazendo a um evento esportivo uma tensão que ultrapassa as quatro linhas de sempre.

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Omar Abdulkadir Artan, de Somália, grande revelação da arbitragem africana, foi impedido de entrar nos EUA sob alegações de segurança nada detalhadas e sumariamente cortado da competição pela Fifa. Seleções como Senegal e Uzbequistão foram submetidas a revistas vexatórias com o uso de cães farejadores na chegada ao país. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi interrogado por sete horas em Chicago. Além disso, na pior quebra do protocolo esportivo já vista em Copas, os EUA concederam um visto ao selecionado iraniano em que proíbe que a delegação possa dormir em solo americano.

Desse modo, o Irã está obrigado entrar no país-sede no mesmo dia em que for jogar, tendo que sair no mesmo dia. Isso descumpre todo o protocolo feito pela Fifa em que todas as seleções têm que estar um dia antes na cidade em que a partida vai ser realizada, para eventos comerciais e compromissos esportivos.

É claro que a Fifa agora nada pode fazer para mudar a realidade, muito menos interferir na soberania dos EUA, em relação a quem o país define quem entra ou não em seu território, como disse Gianni Infantino, presidente da Fifa, em coletiva realizada dias atrás. Mas não era muito inesperado que isso acontecesse exatamente agora. Não cabe ingenuidade à entidade que deveria defender a Copa. E defender a Copa é não realizá-la em países que não querem receber todo e qualquer ser humano de qualquer nação do planeta. Tempo houve para correção de rota. O que nunca houve foi vontade.

Dessa forma, a Copa de 2026 já é a Copa da vergonha. Dos muros. Dos limites entre países saindo da geografia e entrando de uma maneira violenta na geopolítica mais abjeta. Sem parâmetros. Para se ter uma ideia, não aconteceu nada parecido na Copa do Mundo da Rússia em 2018. Nem mesmo nas Olimpíadas de 1936 em Berlim, organizadas pela Alemanha Nazista. Em todos os casos havia tensões mundiais complexas. Mas foram formatados ambientes de esforço para um respeito diplomático em torno da comunhão que é a essência do esporte. A Copa não salvará o mundo. Nem mesmo vai impedir conflitos complexos entre nações. Mas quem faz guerra não deveria fazer Copa. É por isso que nasceu a bola.

Coluna publicada originalmente na edição de 14 de junho de 2026 do Jornal A União

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