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CLÁSSICO DO NORDESTE

Botafogo-PB x Santa Cruz: história do duelo conta com brigas dentro e fora de campo, respeito, convite ilustre ao Arruda e uniformes compartilhados

Botafogo-PB e Santa Cruz se enfrentam pela Série C do Campeonato Brasileiro neste sábado. Confronto tem 86 anos e já protagonizou vários tipos de histórias a serem contadas.
Botafogo-PB e Santa Cruz
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Botafogo-PB e Santa Cruz se enfrentam neste sábado pela Série C do Campeonato Brasileiro em um jogo marcado por tensão e tratado pelos órgãos segurança da Paraíba como um jogo de risco. Isso, de fato, é uma realidade atual. Desde o acirramento cultural entre os estados vizinhos tão diferentes e tão parecidos, decorrente da história do capitalismo brasileiro, a partir da invasão europeia a essas terras — que, por óbvio, chega nas manifestações culturais como o futebol —, a um processo mais recente, mais ligado ao futebol brasileiro, com a estruturação mais forte das torcidas organizadas, que criam contextos de alianças e rivalidades.

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Acontece que o mundo não é só hoje, é também o ontem e o amanhã. E no ontem, o futebol já foi um ambiente menos hostil, mais respeitoso, de maior comunhão. E como parte da criação e da difusão do futebol no Nordeste, Botafogo-PB e Santa Cruz já escreveram páginas de sintonia e de solidariedade também.

O blog traz abaixo um pouco da história dos dois clubes em momentos diversos. De homenagens, de simbiose, de tensões e de vida pulsante do “futebóis” de Paraíba e Pernambuco, que se construíram de algum modo juntos, afinal dividem um espaço de terra parecido, próximo, que se confundem em um amor e ódio malucos e mamelucos.

Primeiro jogo da história: tumulto e vitória do Belo

O primeiro episódio do duelo que reúne o maior campeão estadual da Paraíba com o segundo maior campeão de Pernambuco e dono de uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil é bastante emblemático. É como se a rivalidade tivesse se aflorado desde o primeiro capítulo. Mas não são os erros que vão definir a história do confronto de duas instituições tão importantes do futebol. Há ainda capítulos mais formosos.

Quando a embaixada do Santa Cruz chegou a João Pessoa em 12 outubro de 1940 já era a quinta vez que os Corais — como era também chamado o clube antigamente — tinha visitado a Paraíba para jogar contra as equipes locais. E era a segunda vez na capital paraibana.

A primeira visita do Tricolor na Paraíba para enfrentar clubes paraibanos foi em Campina Grande, em 1933, convidado pelo Paulistano Sport Club, importante time da Rainha da Borborema nas primeiras décadas do futebol paraibano — antes, o Tricolor havia ido a João Pessoa, em sua primeira visita à Paraíba para encarar a Seleção Paraibano, em 1929. Perdeu o jogo por 2 a 0 na então Parahyba do Norte.

Em 1933, o Santa Cruz já tinha 19 anos. Já tinha atingindo a maioridade. Era uma das referências do futebol pernambucano. Em outubro daquele anos disputou dois jogos em Campina Grande. Um contra o Paulistano e outro diante do Campinense. Mas não o Campinense Clube. Foi com o Clube Athletico Campinense, time de futebol de uma época que o hoje famoso Campinense não tinha departamento de futebol. O Tricolor empatou os dois jogos: 1 a 1 diante do Paulistano e 0 a 0 com o Clube Athletico Campinense.

Foi uma ótima estadia. Naquela época, esses acontecimentos eram eventos importantes. Os visitantes eram sempre bem recebidos, passeavam na cidade, comiam bem e recebiam diversas homenagens. E assim foi, conforme relato dos dirigentes da Cobra Coral ao retornar a Recife.

A segunda visita a Joao Pessoa aconteceria dois anos depois. Foi quando o Palmeiras de João Pessoa, importante clube das quatro primeiras décadas do futebol dessa terra, convidou e recebeu os Corais. Em novembro de 1935, o Santa Cruz conquistava o seu primeiro triunfo em solo paraibano, ao vencer a partida por 3 a 1.

Cinco anos depois, o Santa Cruz retornou à capital paraibana. Para um jogo com um Botafogo-PB que ainda não tinha dez anos de vida, mas que já era tricampeão paraibano (1936, 1937, 1938) e era a grande sensação naquele momento do futebol paraibano.

A visita do Santa Cruz — e de qualquer clube dos estados vizinhos, como Pernambuco ou Rio Grande do Norte, que era um pouco mais comum — eram verdadeiros acontecimentos para a cidade. O futebol já começava a se popularizar como uma das principais opções de lazer nos centros urbanos. Amistosos interestaduais como atrações dos fim de semana eram cada vez mais possíveis. E o Santa Cruz era um vizinho ilustre.

A delegação tricolor foi recebida “fidalgamente” como relataram os dirigentes pernambucanos à imprensa de Recife. A partida foi tão esperada que, de acordo com imprensa paraibana, o público registrado no Estádio do Cabo Branco, o Primeiro de Maio, em Jaguaribe, foi o maior da Paraíba até aquele momento.

Em campo, o duelo foi bem equilibrado. Com chances para os dois lados. O Belo abriu o placar com Alemão, no primeiro tempo. O empate veio ainda na primeira etapa, com gol do argentino Zoroza. O gol da vitória, que por sinal antecedeu o quebra-quebra em Jaguaribe, foi do histórico atacante botafoguense Ronal, que marcou nos últimos minutos da segunda etapa, decretando o triunfo alvinegro.

Jornal Pequeno, de Recife, repercute jogo entre Belo e Cobra Coral em 1940

Acontece que depois do segundo gol do Belo, o pau cantou, meu amigo e minha amiga. A chinela chiou pesado e nem era um bom forró de Antônio Barros ou Onildo Almeida. Isso porque, segundo relato do dirigente Higino Brito, do Botafogo-PB, o histórico atacante do Santa Cruz, Tará, que viria a se tornar o maior artilheiro da história do clube com 207 gols, chamou o juiz de ladrão. O árbitro, no entanto, em vez de expulsar o atleta da Cobra Coral, resolveu defender a honra sem o simbolismo do cartão vermelho, que, por óbvio, não existia na época. E foi brigar na mão, sem apito, com Tará.

Resultado: invasão de campo, “muído” grande, tentativas de expulsar Tará ou o juiz para a peleja da bola continuar, mas sem sucesso. O jogo terminou faltando poucos minutos para acabar os 40 minutos regulamentares acordados para o jogo, com o sol pessoense, apressado que é, já sumindo, e com o campo escurecendo. No fim, um 2 a 1 para o Belo no primeiro confronto da história entre Botafogo-PB e Santa Cruz.

Importante ressaltar que a bronca do Santa Cruz foi muito mais com a arbitragem da Liga Desportiva Parahybana (LDP) do que com o Botafogo-PB. Tanto que, após o duelo, a relação entre as delegações seguiu cortês, de modo que o clube paraibano ciceroneou os Corais até o Cassino da Lagoa para se alimentar e tomar aquela velha gelada, que não sei se nesse tempo tão gelada assim. Na noite de domingo, após as despedidas, a delegação tricolor retornou a Recife.

Camisas compartilhadas

Muito se sabe que o Botafogo-PB teve uma história de várias mudanças em relação a suas cores. O clube nasceu alvinegro, virou tricolor ainda nos primeiros anos de vida e depois voltou a ser alvinegro. De certo modo, ainda voltou a ser tricolor no fim da década de 1970 e em parte da década de 1980, mas já sem largar as listras alvinegras verticais dos seus uniformes.

De 1938 a 1941, Botafogo-PB atuava de camisa coral

Mas o que pouco se sabe é que o Belo foi um tricolor coral, assim como Santa Cruz. E foi justamente no seu primeiro tempo hegemônico no futebol paraibano. O título de 1938, por exemplo, foi com a camisa coral, idêntica ao do Santa Cruz. Os jogos de camisas, aliás, possivelmente foram conseguidas em Recife, visto que o presidente botafoguense da época, Antônio Tourinho Paes Barreto, tinha uma relação com a cidade.

No primeiro confronto entre as equipes, narrado acima, o Belo ainda atuava com essas camisas. Tanto que na partida em questão fez questão de atuar de branco, para que o Santa Cruz pudesse jogar com o seu padrão coral. O clube pessoense fez isso em forma de respeito. O fato foi registrado pelo Jornal A União na época.

Inauguração dos refletores do Arruda

A relação entre os clubes, de algum modo, sempre foi estreita. Houve vários confrontos ao longo dos anos, em amistosos, em torneios importantes da época, a exemplo do Torneio Paraíba-Pernambuco, em que o Botafogo-PB foi campeão em 1953 e o Santa Cruz em 1962. Convites de parte a parte para jogos amigáveis eram comuns.

Um dos mais ilustres foi quando a Cobra Coral convidou o Alvinegro para fazer parte da inauguração dos refletores do Estádio José do Rego Maciel, o imponente Mundão do Arruda. Que, evidentemente, na época, era apenas um planetinha. Um estádio pequeno, com arquibancada modesta, de madeira, como explica o jornalista Cassio Zirpoli. O que era condizente com e época. Além disso, as direções das traves eram diferentes. Em vez de Norte/Sul, como hoje, Oeste/Leste, como também descreve Cassio.

Era muito mais o campo do Arruda do que o Estádio do Arruda. Em Pernambuco, a inauguração do Estádio do Arruda é tratada como realizada em 1972, numa compreensão mais moderna, mais próxima do que é o local hoje em Recife. No entanto, o Arruda é casa do Santa desde 1943. Os jogos maiores, no entanto, do Campeonato Pernambucano, ou amistosos com clubes mais importantes, eram realizados na Ilha do Retiro, casa do Sport.

Botafogo-PB vence o Santa Cruz na inauguração dos refletores do Arruda em 1957

Em 1957, porém, o Arruda inaugurou o seu primeiro sistema de iluminação. E convidou o Botafogo-PB para ser o adversário da vez naquela ocasião, registrando também o primeiro amistoso interestadual do estádio — ou do campo. O Belo, aliás, botou água no chopp do Tricolor e venceu os donos da casa na ocasião, por 2 a 1. Jorginho abriu o placar para o Tricolor, enquanto que Milton e Galeguinho viraram para o Belo.

O Santa Cruz teve reforços de alguns jogadores de outros clubes da cidade, mas também sofreu com desfalques de atletas que estavam servindo à Seleção Pernambucana, que estava atuando no Campeonato Brasileiro de Seleções naquela altura. O time da casa atuou com: Mauro, Caroá e Lucas; Joab, Gonsaga e Edinho; Jorge de Castro, Paulo (Jarbas), Hildebrando, Mituca (Amauri) e Jorginho. A equipe pessoense foi a campo com: Josil, Borracha e Nelson; Marajó, Escurinho e Tito; Galeguinho, Pedro Negrinho, Milton (Zinho), Bola Sete (Nuca) e Joãozinho.

A quebra de expectativa para o lado pernambucano foi tão grande que o Santa Cruz fez questão de buscar uma revanche, devidamente aceita pelo coirmão paraibano. Dez dias depois, no mesmo local, o Santa Cruz venceu a peleja por 5 a 0. Os dois jogos sobe as luzes primeiras do Arruda.

Torcidas organizadas são rivais

A realidade atual de Botafogo-PB e Santa Cruz, sobretudo fora do campo, é bem mais hostil. As principais organizadas dos dois clubes são rivais. Tanto que elas estão vetadas para o jogo deste sábado pela Série C do Campeonato Brasileiro. A Torcida Jovem do Botafogo-PB (TJB) e a Torcida Fúria Independente do Botafogo-PB (TFIB) fazem parte da aliança chamado Lado B, enquanto que a Explosão Inferno Coral, do Santa Cruz, faz parte da aliança Lado A, nas tradicionais alianças das arquibancadas do Nordeste.

Todas são torcidas de pista, isto é, brigam se encontrar em qualquer lugar. Em 2013 foi registrada em João Pessoa uma briga grande entre a TJB e a Inferno Coral, fora do Almeidão, em um jogo amistoso entre os dois clubes, pouco antes do início da Série D do Campeonato Brasileiro, que acabou sendo conquistada pelo Belo. Houve prisões e feridos, com intervenção da Polícia Militar. Infelizmente, esses casos são comuns entre essas torcidas dos dois clubes.

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