PUBLICIDADE

Jornal A União

Coluna Jornal A União — Brasileiros encarnando o pior dos europeus

Coluna publicada na edição impressa do Jornal A União no dia 9 de novembro
Reprodução / YouTube / FBTF
Compartilhe:

Eu, sinceramente, jamais imaginei defender um europeu diante de um ambiente deprimente de hostilidade criado por brasileiros… contra europeus. Minha sanha sempre — ou, agora percebo, quase sempre — será de defender brasileiros em debates contra europeus. Eu achei mesmo que em todas as questões possíveis e imagináveis seria assim e que eu estaria num front ideológico e geográfico: a partir do Sul Global. Mas o futebol brasileiro, já diria quase todos os poetas, é uma caixinha de surpresas.

Pois bem, só mesmo o futebol brasileiro para criar uma narrativa “contraeuropeia” e me incomodar com isso. É que não tem nada a ver com um anticolonialismo que há de ser sempre apoiado por este escriba. Ou sobre uma busca de conter discursos impostos que possam vir a edificar um viralatismo ainda corrente por cá pelos trópicos. O que vimos na última terça-feira num encontro de treinadores brasileiros, com a presença do italiano Carlo Ancelotti, foi uma espécie exatamente dessa síndrome. Oswaldo Oliveira e Emerson Leão pegaram para si uma das piores características de considerável parte do povo europeu, que é a da malevolência contra pessoas de outros países.

Em muitos territórios e mentes da Europa há não só narrativas e discursos antimigração. Há violências simbólicas e físicas. Há também políticas de estado contra pessoas que não são do velho e decadente continente. Sobretudo contra aquelas que desembarcam naquele pedaço de terra, oriundos de complicações e terríveis realidades, muitas vezes financiadas e construídas pelos colonizadores, antigos ou modernos, de lá, em seus países. No futebol brasileiro há técnicos que adotam o pior dos europeus contra os europeus. E contra argentinos, também substancialmente presentes nos cargos de comissão técnica por aqui. De modo que, é bem verdade, não é só contra europeus. Mas contra estrangeiros. Numa espécie de tentativa desesperada de reserva de mercado, fomentada por técnicos que são piores do que alguns que nasceram fora dos limites da nossa terra brasilis. Simples assim.

Casos de Oswaldo e Leão, que fizeram do encontro de técnicos uma das páginas mais constrangedoras do futebol brasileiro, criticando, de maneira deselegante, desesperada e sem qualquer argumento plausível, a vivência de comandantes estrangeiros no Brasil. Tudo isso de cima do mesmo palco em que estava Ancelotti, que não pediu para sair da Itália, que não depende do futebol brasileiro para ser um dos maiores da história e que, a meu ver, vive muito mais uma aventura de tentar ser campeão por um país que respira — cada vez menos e pior — o futebol e que sempre admirou, do que qualquer outra coisa. E que, convenhamos, não tem nada para absorver de figuras como os grosseiros Oliveira e Leão.

Vale notar alguns pontos. As narrativas são tão deprimentes que não se ancoram em nenhuma perspectiva que poderia vir a fazer sentido sobre a construção de um futebol brasileiro melhor a partir dos próprios brasileiros. Não me consta que Oswaldo ou Leão defendam que se diminua o número de atletas estrangeiros. Se o cara for bom e puder salvar o emprego de um deles é claro que ambos iriam comemorar a contratação e o número de vagas para jogadores não brasileiros em cada elenco do Brasileirão.

Vale lembrar que Leão e Oswaldo não pensaram muito nos técnicos japoneses e cataris quando foram técnicos estrangeiros no Japão e no Catar em busca de receber rios de dinheiro. Em um óbvio momento em que esses países precisavam de intercâmbios com gente de maior repertório na modalidade. É justamente o que acontece no futebol brasileiro hoje. Uma necessidade real de técnicos melhores do que a grande parte dos defasados brasileiros para o futebol jogado por aqui ser melhor. E falta mais, viu! Seria ótimo árbitros melhores de fora. Dirigentes. E por que não jornalistas? Trazendo visões, políticas e técnicas que enriqueçam nosso futebol, para mim, tudo isso faz bem. Desde que, em paralelo, o futebol brasileiro passe a, de uma vez por todas, formar agentes com real boa vontade e qualidade, com um plano claro de onde quer chegar. Ou voltar a estar. 

Coluna publicada na edição do dia 9 de novembro de 2025 do Jornal A União.

Relacionados

VOLTA PARA CASA?

Adriano Souza revela desejo do Treze em jogar Série D no PV, mas pondera: “Precisamos de tempo”

FIM DO CICLO

Lisca não é mais treinador do Botafogo-PB

DE OLHO NA TABELA

Copa do Nordeste 2026: confira o que Botafogo-PB e Sousa precisam para se classificar