É tempo de Copa. Ou quase isso. O que eu sei é que já estou completamente envolvido com o evento mais fantástico do futebol, que envolve visceralmente nações, povos, culturas, equívocos, virtudes, alegrias e tristezas. Não tem jeito. É mesmo o futebol o maior simulacro da existência. Em Copa, isso ainda é mais latente para mim, com a reunião de todo tipo de ser humano em volta de uma competição de bola.
+ Receba conteúdo diariamente pelo WhatsApp
Como disse, eu já estou completamente envolvido. Mesmo que ainda abalado com a convocação, que julgo ser absurda, do ex-craque Neymar pelo nosso escrete. Mas se abalar também é se envolver. E meu envolvimento não é apenas melancólico. É também diferente e eu ensino para vocês, parafraseando a filósofa contemporânea, cantora, compositora e figura aparentemente maravilhosa, MC Loma.
É que estou envolvido também pelo lado bom. Pelos jogos. Pelos debates na redação, nos grupos de WhatsApp formado por especialistas de todos os tempos da última semana em matéria de Copa. De gente que quase não vê futebol, não acompanha os jogadores, os clubes e sabem de tudo. Isso é maravilhoso! Não vejo a hora de assistir a um Coreia do Sul x República Tcheca. Os jogos bons, como Espanha x Uruguai, e os outros tantos que vierem no mata-mata. Já estou ansioso pelas partidas do meu Brasil. De testemunhar o inédito Grupo da Vida da Copa, com Canadá, Bósnia, Catar e Suíça. Se o Grupo da Morte reúnes muitas equipes boas na mesma chave, o sodalício de times ruins há de ser o Grupo da Vida.
Estou ansioso pelas histórias que virão. As tragédias. Os dramas. As piadas. E as alegrias. Os cortes de Neymar. Que acho que não virão. Seja o corte da lista, seja um corte magistral diante dos adversários, driblando, jogando bem. Estou ansioso pelo hexa do Brasil, que eu também acho que não virá. Pelas despedidas, que tanto odeio. Será a última Copa do Mundo de uma ruma de bons jogadores do presentes ou do passado, como o próprio Neymar. O derradeiro Mundial de muitos que ainda devem render bem no torneio, como Messi, Cristiano Ronaldo, Modric, Dzeko, Neuer, De Paul, Kanté. Um adeus a craques que nos fazem amar este jogo simples e complexo.
+ Confira outras colunas do autor
Não demora muito e estarei com amigos, amores, malucos, supostos entendedores de futebol, convictos de que tudo sabem e de que nada entendem — esses últimos sempre em minoria —, se iludindo nem que seja por 90 minutos que o Brasil vai ter alguma chance de ser campeão. E vai ter samba, choro, vela, fita amarela. E verde também.
Vai ter ainda o momento de voltar a amar uma França que a gente odeia. Amar porque o time comandado tecnicamente por Dembélé e Mbappé é realmente maravilhoso de assistir. Eu não torço. Mas que vou querer ver a equipe de Didier Deschamps eu vou. E vou querer me envolver com o melhor futebol de seleção que alia qualidade física e técnica. Vou rimar amor e dor porque os caras são nossos algozes sempre em Copa do Mundo, como em 1986, 1998 e 2006. E eu não aguento mais. Espero que percam tudo. E que joguem o que sabem para eu lembrar que o futebol bem jogado é lindo, independente de quem o jogue. Se ganharem, azar meu. Sorte da Copa.
Já quero ver a Espanha entrar em campo. Uma Espanha novamente extremamente catalã e pouco madrilenha. Ou madridista. Aliás, nada madrilenha ou madridista. Pela primeira vez na história, a equipe da terra de Isaac Albéniz, autor de uma das mais belas composições musicais da vida — ouça Asturias (Leyenda), caro leitor — vai jogar a música sem nenhum jogador do Real Madrid. Disse certa vez, após o título espanhol da Copa de 2010, a primeira conquista ibérica no Mundial, o polêmico e fascinante figura, o ex-atacante francês, Eric Cantona, que não foi a Espanha que foi campeã, mas, sim o Barcelona.
De fato, aquele timaço da Fúria contava com o auge do futebol “guardioliano” de seus melhores discípulos. Xavi, Iniesta, Busquets, Pedro, Villa, Piqué e Puyol integravam um os grandes times espanhóis que, pela primeira vez, conquistava a África de um modo decente. A leitura, um tanto irônica, porém verossímil, de Cantona, no entanto ignorava a ajuda, ainda que pequena, considerável do futebol da capital espanhola. Sérgio Ramos era um dos defensores. O goleiro da equipo era Iker Casillas. Um pequeno grande goleiro. Ambos do Real Madrid. E ainda tem Messi para ver e admirar nesta Copa. Mas Messi vale uma coluna só para ele.
São tantas as histórias que já começaram a ser escritas. E muitas estão por vir. Quero ler todas, ver tudo, acompanhar cada página de mais um Mundial de bola. Conhecer culturas, erros e acertos, no jogo, no mundo. A Copa do Mundo já começou. E eu estou aqui, no meu lugar no mundo, preste a viajar todos os dias para conhecer o planeta. O futebol, a Copa, como os livros, nos transportam para qualquer lugar.
Coluna publicada originalmente na edição de 31 de maio de 2026 do Jornal A União