Em uma das colunas anteriores eu já previ que Messi chegaria por aqui em algum momento. Entraria em campo nestes meus escritos, afinal, essa deve ser a última Copa do Mundo do maior jogador dos meus tempos. Eu, aliás, achei que falaria pela primeira vez dele nesta coluna — certamente haverá outras vezes — para escrever também sobre o tempo. Sobre o fim. Talvez esse tempo chegue. Ele sempre chega. Mas, é que Messi é também começo e meio. E meia. E atacante. A versão atual de Messi é justamente a mais amalgamada das duas coisas.
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O que deixa ele, para mim, mesmo sem aquela explosão física que, dentro do seu jogar, era também bonito de acompanhar, um jogador ainda extremamente agradável de ver. Sem contar que segue ainda sendo completamente funcional para o jogo e para o seu time. Havia uma certa dúvida em muita gente, da imprensa, da torcida, sobre a sua condição de jogo para esta Copa do Mundo.
O que Messi iria oferecer? Não havia certezas. Só dúvidas. O que já era um certo acinte, para mim. Era bem evidente a ausência de piano nas costas do maestro para o torneio deste ano. Não tinha como achar que seria diferente, após anos de uma relação complicada com o seu povo e a sua seleção, com anos e campeonatos de fracasso. Tudo isso encerrado com um título épico da Copa do Mundo do Catar, sendo, de fato, o melhor jogador do torneio e da campanha do tricampeonato mundial argentino. A volta por cima foi das mais épicas. Messi tratou de mostrar que segue sendo implacável, efetivo e belo logo cedo.
Na estreia da equipe argentina diante da Argélia, Messi foi o grande nome do time de Scaloni, no início da semana. Deu piques pontuais para ajudar na marcação, correu algumas vezes para construir jogadas para os seus companheiros. Tudo isso intercalando com momentos de silêncio futebolístico, andando em campo em grande parte do tempo, sem oferecer intensidade. Descansando para o momento certo. E o momento certo chega. Feito um raio, arma e marca. Três vezes. No mesmo dia em que o norueguês Haaland marcou duas vezes e que o francês Mbappé fez o mesmo pela França. É o “Eu estou aqui” de Cristiano Ronaldo sem mexer os lábios. Apenas os neurônios e pernas. Assumiu a artilharia ao fim da primeira rodada com três gols, emocionando seu treinador, que sofre a cada jogo, sabendo que seu craque e amigo está perto de se despedir do meio.
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Emocionando a todos que amam ver um futebol no ápice de seu requinte. Mas, vamos deixar para falar do fim mais para o fim. Messi em campo, atuando bem, alegre, sem pressão e feliz, com uma ruma de companheiros que range os dentes quando preciso, entram forte, ganham duelos físicos, fazem faltas duras para deixar Messi abrir um sorriso, para que todos riam por último, tem parecido um menino. Os defensores são maiores e mais fortes cada vez mais. E Messi é o baixinho de sempre, franzino, ainda que muito forte, mesmo que cada vez menos, em meio às fortalezas que tentam, quase sempre em vão, parar o camisa 10 tamanho P.
Messi a cada partida me faz menino de novo. Viro criança novamente a cada 90 minutos, torcendo pelo ídolo, menor do que os rivais. O herói Davi que sempre vence. Ora um duelo ou outro, com um drible desconcertante e inalcançável para o Golias da vez. Ora tudo que vem pela frente, até o fim e a final. Até a taça. E ele já mostrou que quer a segunda dele da Copa.
O argentino hoje dialoga muito com o fim. Descuido de Deus que mães e Messi não sejam para sempre. Mas ele também conversa com o passado. Messi é a mesma criança de sempre em busca de transpor os mais altos. Os mais altos rivais e os mais altos sonhos. Sozinho, no meu quarto, também volto ao passado, rindo feito menino com as vitórias em cada jogada do pequeno jogador argentino. Gritando, chorando. Criando as histórias que vejo se transformar em realidade dentro do tapete verde pelo artista da bola. Que bom ter Messi no mundo e na Copa.
Coluna publicada originalmente na edição de 21 de junho de 2026 do Jornal A União