Já são tantos os momentos emocionantes de uma Copa do Mundo vergonhosa, que por aqui já foi devidamente detalhada como tal. Mas é que o futebol tem uma vontade cega, tal qual a existência humana, como diria o filósofo da terra vencedora do 7 a 1 Arthur Schopenhauer, de emocionar com belas vidas e histórias que aparecem para todos nós a partir desse jogo e de seu maior espetáculo.
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Apesar dos horrores dessa Copa em terça medida americana, já são muitos os episódios a me iludir que o mundo — e o futebol — tem alguma salvação. Das coisas mais simples às mais complexas. E a primeira que lembro aqui nesses escritos de hoje é uma cena das mais despretensiosas possíveis, quando isolamos o fato, o exercício, o teatro em si do contexto em questão. Um contexto que percorre as veias do mundo.
É até estranho, de algum modo, penso eu, quando interpreto justamente nessa leitura mais solitária da vida ou da cena, se emocionar com uma coisa tão simples. Mas aí me conforto que não sou um leso solitário nesse mundo redondo que ama chutar ou apenas assistir golpes de perna numa bola. Basta passar a cena que os comentaristas, torcedores, jornalistas, ex-jogadores, amantes do futebol, se emocionam. Riem. Vidrados ficam na televisão que mostra. Ou para quem tem mais sorte, inertes ficam os que estão nos estádios vendo ao vivo. Acompanhando a dança do barulho com o silêncio.
É uma cena bonita, mas que que é apenas mais uma das grandes lindezas de um evento internacional de reunião de nações em volta de um esporte. Acontece que um amigo fez uma das mais belas sínteses sobre aquilo em um dos grupos de amigos do meu WhatsApp. Aliás, para quem não tem dinheiro ou sorte — ou mesmo competência — profissional para estar vendo a Copa do Mundo do lugar de onde ela pulsa, os amigos são as companhias que sobram e as mais perfeitas para dividir o Mundial. E como o mundo também gira sem a Copa, não dá para vê-los todos os dias. Então o celular nos aproxima e nos dá boas chances de sínteses, num espaço de tão rápida comunicação.
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Foi ali que uma das cenas até aqui mais emblemáticas da Copa do Mundo de Canadá, EUA e México ganhou a mais bela explicação. Em poucos caracteres, o que, de algum modo, também me ganha, tal qual os textos grandes. O amigo Wanhilton Pessoa, o grande Wuto, cravou: “É de arrepiar essa presepada aí”. Estava ali uma análise rica e precisa da forma teatral da simbiose entre torcida e time da Noruega e a sua imponente, simplória, lúdica e genial remada viking. Meu deus… como é que danado eu estou há dias, toda vez que vejo, emocionado com uma remada viking?
Minha relação com os vikings é tão ínfima que eu nem vi a tal série famosa. Meu contato com a Noruega se limita a lembrar que foi a seleção do país a responsável pela primeira derrota do Brasil em Copa do Mundo que eu assisti, em 1998, e a de saber que o atacante Haaland, que tanto vejo desfilar seu pouco estético e muito efetivo futebol nos fins de semana com a camisa do Manchester City, é desse pedaço de terra europeu. Não conheço nada sobre vikings e nem sobre Noruega. Eu acho isso tudo um saco. Não me interesso em nada deles.
E aí me vejo arrepiado com uma remada viking, marca registrada da torcida norueguesa, que homenageia a forte relação que seu povo tem com o mar, inclusive os antepassados vikings. Após a vitória da seleção sobre Senegal foi a vez dos jogadores fazerem a tal remada juntamente com a torcida. Uma festa belíssima. Quem se emociona com uma besteira dessas? Só eu mesmo. E talvez o mundo.
Coluna publicada originalmente na edição de 28 junho de 2026 do Jornal A União