Nessa sexta-feira, o Botafogo-PB surpreendeu ao lançar, em suas redes sociais, uma espécie de concurso para a produção de um escudo alternativo para o clube. A forma como está sendo tratada uma mudança tão signficativa, ainda que não tão profunda, visto que não é a substituição do seu emblema, e a escolha por um concurso extremamente capenga, foi alvo da torcida nas últimas horas. O blog analisa abaixo a proposta feita pela SAF do Alvinegro da Estrela Vermelha.
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A primeira contradição de Fillipe Félix
Primeiro é importante ressaltar que o atual dono majoritário da SAF do Botafogo-PB foi um dos agentes desse novo Belo, por onde já passou diversos dirigentes, diante desse mundo do futebol onde cada temporada parece durar uma eternidade, que mais respeitou um dos temas mais sensíveis do clube, que é a questão do escudo e do nome.
Pelo menos publicamente. Em entrevistas, Félix sempre foi muito respeitoso à identidade do clube, mesmo com as evidentes inspirações estéticas ao clube carioca, por meio do nome e do emblema. Sempre pareceu compreender bem que o assunto é extremamente delicado e profundamente dividido na torcida.
Enquanto tem gente torcedora dentro e fora do clube que não aceita nenhuma mudança no que já está posto, existe uma grande parcela de pessoas que quer modificações radicais e parecem até hoje fazer um esforço danado para torcer para o time da estrela vermelha. No Botafogo-PB há pessoas que, por elas, o clube seria só de poucos amigos, do bairro do Cristo, e se o clube voltasse a ter a estrela branca, estava tudo bem.

Por outro lado, há também gente que odeia o que ama. Ou ama o que odeia. Que vai para o Almeidão, torce para o time ganhar, e detesta torcer para um time com aquele nome e aquele escudo. Sinto demasiada dificuldade em entender os dois sentimentos. Mas eles existem. E, diante dessa realidade, Félix sempre pareceu compreender que qualquer debate sobre mudanças profundas precisava de calma e de muito respeito por todas as visões.
Mas depois de tantos sinais de aparente compreensão, a prática acabou por ser distinta, condizendo com uma postura bem menos cuidadosa do que as demonstradas antes. O dirigente autorizou um concurso para a criação de um escudo alternativo. A prerrogativa para a criação de um segundo emblema é até justa. O Belo segue com a problemática de estar se arriscando legalmente em comercializar seus produtos com uma marca que não tem direito sobre ela, e que é contestada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pelo Botafogo do Rio.
De modo que a criação de um escudo alternativo para que o clube consiga ter uma segurança jurídica maior em termos de marca faz total sentido. A escolha para formatar isso, no entanto, é extremamente capenga. Amadora, eu diria. O que não cabe para a criação de um emblema que vai ser oficial e que inevitavelmente será produto de uma série de debates e resistências. E que, por óbvio, vai ser o pilar estético em um eventual momento que possa haver a sugestão da mudança total de escudo, abandonando o pavilhão atual.
Concurso banaliza o debate
A forma de criar uma nova marca — como já dito, algo que tem total sentido de ser buscado, visto que o Belo alça patamares maiores de receitas e de profissionalização —, no entanto, banaliza substancialmente o debate tão espinhoso. E que merece mesmo ser espinhoso, afinal, identidade, nome de time e escudo são coisas sérias.
O concurso, por si só, já se distancia de qualquer sentido de uma construção séria, profissional, cuidadosa, para a formatação de numa nova marca para o Botafogo-PB. O tema necessita de debate com a torcida, estudos sérios sobre elementos estéticos entendidos pelo torcedor como cruciais a serem mantidos ou colocados em um novo escudo, profissionais capacitados para compreender tudo isso e colocar numa sóbria criação de marca. Requer investimento, paciência e qualidade.
Um concurso que sequer oferece premiação em dinheiro, ou quaisquer atrativos de prêmio que atraia profissionais da área, para mim, não pode ser levado a sério como instrumento de criação de algo tão importante para o futuro do clube. O Botafogo-PB ofereceu um plano de sócio para quem vencer. Uma visita na Maravilha. Camisas do clube. A tendência é que vire uma guerra de torcidas de gincana de colégio.
O clube, numa falsa compreensão de colocar o torcedor como parte do processo da criação do seu novo emblema, ignora a necessidade de um ambiente profissional em vários termos, como já dito. Uma “pseudopremissa” de que o torcedor vai ser central nessa construção a partir do fato de que muitos criarão logos e vários irão votar e, portanto, escolher o tal escudo alternativo.
No debate: antes distante, Félix se aproxima de Gallo
A atitude do atual comandante da SAF do Botafogo-PB, ora distante do seu ex-companheiro de clube, Alexandre Gallo, agora se assemelhou bastante à do ex-dirigente alvinegro. Como já colocado na análise, Fillipe Félix sempre pareceu ser compreensivo com o debate de um novo escudo e extremante respeitoso e paciente com a construção de mudanças.
O que era inversamente proporcional ao que Alexandre Gallo fez no ano passado. Gallo e seu nome forte da comunicação da época, Olivério Júnior, tinham uma visão muito mais clara — e apressada — sobre a necessidade da mudança de marca no clube, tanto ao nome, quanto ao escudo, como apurou o blog.
Ainda no início do ano passado, com Gallo assumindo o cargo de CEO da SAF do Botafogo-PB, o agora treinador do Azuriz simplesmente autorizou a mudança do nome oficial do perfil do Instagram do clube para Belo FC. O que tratei, em análise na CBN, onde trabalhava à época, como uma violência simbólica. E olhe que Belo é uma das maiores identidades do Alvinegro da Estrela Vermelha. E, claro, para mim, a única nomenclatura que faria sentido para sustentar uma eventual campanha de mudança de nome do clube.

Ou seja, a violência não é por negar que Belo seria uma ótima opção em uma possível mudança. Mas é pelo fato de modificar as coisas “na tora”, em ambientes oficiais, sem diálogo. Até o momento, Belo Futebol Clube não existe. Portanto nada do Botafogo Futebol Clube pode ser colocado como Belo FC. Por puro respeito à institucionalidade e seus legítimos espaços de poder.
Na época, a mudança de nome em uma das redes sociais do clube causou incômodo no Conselho Deliberativo, e Gallo teve até que se explicar. Em uma nota oficial dissimulada endereçada ao CD, o dirigente disse que o acontecido foi um mero erro do “pessoal da comunicação”. Que não é verdade. Foi até prometido um retorno ao nome original no perfil. O que não ocorreu na época. E, pasmem, até agora.
Pelo que apurou o blog, Fillipe Félix não fez parte de nada dessa mudança na rede social. O fato é que até o momento não houve a retificação. O Instagram do clube permanece nomeado de Belo FC. E Belo FC não existe. Pelo menos ainda. O blog entrou em contato com um membro da comunicação do clube que não soube explicar a razão de ainda estar dessa maneira.