Ainda nem acabou o Campeonato Paraibano, e a Federação Paraibana de Futebol (FPF) já começa a lidar com uma polêmica importante. É que a FPF, que prometeu realizar uma Copa Paraíba no segundo semestre deste ano, reservando ao seu campeão uma vaga na Copa do Brasil 2027, não pode simplesmente fazer isso ao seu bel prazer. A realidade já bateu na porta da entidade.
Vamos aos fatos. Para que a FPF organize a competição e disponha de uma vaga paraibana na Copa do Brasil do ano que vem, ela tem uma missão a cumprir. Convencer a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a mudar para o ano que vem o regulamento da competição nacional. É que, de acordo com sistema de disputa do campeonato, federações que têm direito a três vagas para a competição só podem indicar clubes oriundos dos seus campeonatos estaduais. Não pode ser por torneios seletivos, caso da Copa Paraíba.
Em 2026, pela primeira vez, após uma reestruturação na Copa do Brasil realizada pela CBF, a Paraíba tem direito três clubes no torneio. E assim vai ser em 2027. De modo que para reservar uma vaga na Copa do Brasil no ano que vem para o vencedor da Copa Paraíba desse ano, o regulamento do torneio nacional terá que ser modificado.

Em 2025, o estado tinha direito a duas vagas. E só poderia utilizar o estadual como critério de classificação para o torneio. Já federações que tinham três vagas poderiam destinar uma delas ao vencedor de torneio seletivo. Agora, quem tem direito a três tem que entregar todas elas aos melhores classificados do estadual. Nessa esteira, o Campinense, terceiro colocado geral do Campeonato Paraibano 2026 está atento ao tema.
FPF estabelece limitação de clubes participantes na Copa Paraíba 2026
Para além disso, a FPF estabeleceu critérios para a participação na Copa Paraíba que, ao meu ver, desnecessariamente limitam a quantidade de clubes aptos a disputar o torneio. E por que é desnecessário? Porque ela coloca a legitimidade do torneio para garantir vagas em competições nacionais muito em xeque, se aproximando sempre do mate. Explico!
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De acordo com o Manual de Competições da CBF, antigo Regulamento Geral de Competições, o famoso RGC, um torneio seletivo — caso da Copa Paraíba — para ser legítimo para oferecer vagas em competições nacionais precisa ser disputado por no mínimo seis clubes, sendo três times, também no mínimo, da 1ª divisão do Estadual.
A Federação Paraibana de Futebol estabeleceu que estão aptos para disputar a Copa Paraíba apenas os clube da elite do futebol paraibano que não caíram de divisão e os que não chegaram à final. Ou seja, os seis clubes que não chegaram à decisão e que não foram rebaixados no Paraibano de 2026. Exatamente seis. No máximo.

Com isso, o torneio já nasce no limite da legitimidade, com os seis times necessários para que a competição seletiva possa dar vaga em torneios nacionais. Bastaria uma desistência de um dos clubes que têm direito a disputar a Copa Paraíba para o campeonato ficar proibido de proporcionar ao campeão uma vaga em competições da CBF. Isso, claro, diante dos critérios divulgados até o momento, na ocasião em que a Copa Paraíba foi anunciada pela presidente Michelle Ramalho como novidade para o calendário do futebol paraibano em 2026.
Possíveis lóbis
A desistência de algum clube por questões financeiras, aliás, não seria uma realidade tão improvável, afinal vivemos em um contexto em que muitos clubes paraibanos são pobres e podem não querer investir em outro torneio no ano, além do Campeonato Paraibano, nem é a única possibilidade para um clube não querer jogar o campeonato.
É que enquanto não tiver uma definição clara de que a Copa do Brasil vai modificar o seu regulamento, o terceiro colocado do Estadual deste ano, no caso, o Campinense, pode boicotar o campeonato. Alegando que a terceira vaga na Copa do Brasil do ano que vem é dele. O que a rigor, diante do cenário atual, faz sentido. Não só boicotar não disputando, mas fazendo um legítimo lóbi para que o torneio não ocorra. Futebol é política, cara pálida.
É claro que por outro lado, clubes como Treze e Serra Branca, com condições econômicas melhores do que outros certamente vão buscar forçar a barra para o outro lado do debate, para que haja o campeonato, que seria a última chance, por exemplo, de ambos, de garantir uma receita importante no ano seguinte, com a participação na Copa do Brasil, caso conquiste o título da Copa Paraíba.
Nada impede, no entanto, de uma correção de rota. Sobretudo após a FPF enxergar essas questões expostas aqui. A primeira missão é clara. Para a Copa Paraíba sobreviver como torneio que poderá dar uma vaga na Copa do Brasil ele vai precisar que a mãe, CBF, assinale oficialmente que vai modificar para o ano que vem o critério de classificação para seu torneio nacional, aprovando indicações via torneio seletivo para federações que possuem direito a três vagas. Só após isso a FPF pode se debruçar sobre outras problemáticas, que também existem, a nível local.
O curioso é que entra ano e sai ano, entra presidente e sai presidente, e parece que no prédio da bola do Tambiá ninguém tem muito o costume de ler regulamentos do futebol. E vai sobrando para mim ser o mensageiro de que as gestões na FPF têm alergia à leitura.